Autor: Ariane de Oliveira
Email: ariane@nutricaoemfoco.com.br
Data de publicação: 30 de julho de 2010
CONTEXTO
Atualmente, a
problemática ambiental decorrente da geração de resíduos sólidos constitui um sério desafio a ser enfrentado pelos órgãos de saúde e ambientais, prefeituras, técnicos e pesquisadores da área. O crescimento populacional e o aumento da urbanização não têm sido acompanhados com as medidas necessárias para dar um destino adequado ao lixo produzido (COELHO, 2000; IBGE, 1991). Nesse contexto, olhares voltam-se para os serviços de alimentação e nutrição uma vez que a utilização não consciente de recursos e o aumento da geração de resíduos, aliados ao
desperdício, são alguns dos principais fatores que agravam os impactos ambientais, desafiando a capacidade de recuperação e tolerância dos sistemas naturais.
Segundo dados do IBGE, no ano de 2000, a média de
desperdício de alimentos no Brasil estava entre 30% e 40%. E desse total, estima-se que 10% tenha ocorrido durante a colheita; 50% no manuseio e transporte; 30% nas centrais de abastecimento e 10% nos supermercados e entre os consumidores. Estima-se que em restaurantes o índice de rejeito tenha chegado a 15% e nas casas, a 20%. Isso mostra que o problema do
desperdício e, consequentemente, do desgaste de recursos naturais, tem origem já no início da cadeia produtiva. Desse modo, a questão do uso não consciente de recursos torna-se um problema de abrangência
política,
social e
ambiental, cujo profissional nutricionista, ao gerir uma
Unidade de Alimentação e Nutrição (UAN) deve ter em vista, para assim, procurar alternativas que preservem o
meio ambiente e maximizem suas matérias primas (LUSTOSA; BARREIRO; BELO, 2010).
O QUE FAZER?
Dentro da UAN a redução do desperdício pode ser resolvida com medidas simples, já que a maior parte desse problema decorre de erros no planejamento com excesso de produção, compras realizadas sem critérios, desrespeito à sazonalidade ao se adquirir gêneros alimentícios, falta de qualificação dos funcionários responsáveis pela manipulação e seleção de matérias

primas e também despreparo para elaboração de
cardápios. A capacitação de funcionários torna-se, portanto, uma excelente ferramenta para redução do volume de resíduos sólidos gerados pelos fatores de correção e sobras, visto que o conhecimento de técnicas corretas de manipulação de hortifrutis e o adequado dimensionamento de per capita podem reduzir de forma significativa o volume do resíduo produzido (SPINELLI; CALE, 2009).
Uma outra forma de se polpar o meio ambiente e ao mesmo tempo reduzir custos dentro de uma UAN é a utilização total dos alimentos. Exemplos de sucesso e qualidade nessa área de
aproveitamento integral podem ser vistos em programas como o projeto Cozinha Brasil, desenvolvido pelo SESI, em parceria com Ministério do Desenvolvimento Social e o Mesa Brasil do SESC, por meio do Banco de Alimentos e a da Colheita Urbana. Ambos os projetos privam pela
segurança alimentar com
uso integral de gêneros alimentícios que não "servem" para comercialização por apresentar lesões, amassados, tamanho e peso inferiores aos produtos convencionais, mas que estão em condições de uso e consumo pelas pessoas, desde que sejam preparados sob condições
higiênico sanitárias adequadas.
No caso dos resíduos orgânicos, que são os restos de alimentos e outros materiais que degradam rapidamente na natureza, tais como cascas, folhas, restos de frutos e vegetais, pó de café, papel e outros, o método de compostagem mostra-se, atualmente, um dos mais viáveis e econômicos. Este processo envolve transformações (decomposição biológica) promovidas por micro-organismos do solo que têm na matéria orgânica sua fonte de energia, nutrientes minerais e carbono. O produto final é um material rico em nutrientes, com estrutura fofa, temperatura ambiente, pH próximo de 7, livre de agentes patogênicos, o qual é empregado no cultivo de frutas e hortaliças, sendo uma ótima opção de adubo natural para o cultivo de
alimentos orgânicos (BRASIL, 2010).

Em relação aos
óleos, dados fornecidos pela matéria Reuso do Óleo de Fritura (2006), mostram que o consumo desse produto é, em média de 3 bilhões de litros por ano. Sabe-se também que um litro de óleo pode contaminar 1 milhão de litros de água, quantidade suficiente para o consumo de uma pessoa durante 14 anos. Uma vez presente no
meio ambiente de forma inadequada, o óleo, de menor densidade que a água, permanece na superfície, criando uma barreira que dificulta a entrada de luz e a oxigenação, comprometendo assim a base da cadeia alimentar aquática. Além da contaminação das águas, o óleo que atinge o leito de rios o impermeabiliza, favorecendo enchentes (FELIZARDO, 2003).
Dessa forma, torna-se cada vez mais crescente a necessidade em adotar medidas para reduzir, reutilizar e reciclar os resíduos gerados pelo óleo resultante de processo de cocção. Uma alternativa viável é a
produção de sabão a partir deste resíduo. Grande conquista nesse sentido foi a aprovação da Lei n.°12.047 em 2005, que instituiu o Programa Estadual de Tratamento e Reciclagem de Óleos e Gorduras de Origem Vegetal ou Animal e Uso Culinário (SÃO PAULO, 2005), cujas diretrizes permitiram um aumento do número de entidades e associações interessadas na reciclagem deste tipo de material.

Para os resíduos oriundos do papel, papelão, plástico, isopor, alumínio, vidro e metal, muito utilizados nas UANs, o melhor destino até o presente momento é a reciclagem, a qual mostra-se uma alternativa viável, econômica e geradora de lucros para as empresas envolvidas. No Brasil existem muitas empresas privadas ou ligadas à prefeituras e organizações não governamentais que são voltadas para o trabalho de coleta seletiva e reciclagem desses materiais. O funcionamento de tais instituições, além de reduzir os
impactos ambientais e gerar empregos, promove aumento dos lucros para a economia do país.
Dentro das unidades de alimentação o profissional nutricionista possui papel fundamental como agente conscientizador sobre a reciclagem, em que por meio de capacitações e esclarecimentos sobre o assunto pode orientar e incentivar seus funcionários quanto à coleta seletiva. Trabalhos como os de Bilck, et al. (2009) e
Rezende (2006) apresentam medidas implatandas em UANs que visaram minimizar os impactos ambientais, aliadas

à capacidade de
gerenciar a reintrodução de subprodutos na cadeia de produção, todos oriundos da reciclagem de resíduos inorgânicos provenientes dos próprios restaurantes. Dentro das questões apresentadas, percebe-se que é possível, além de reciclar, reduzir custos e incorporar lucros as unidades produtoras de refeições.
Assim, torna-se evidente que existem alternativas viáveis ao aproveitamento de resíduos produzidos por restaurantes. Entretanto, é necessário aliar a isso vontade política e gestão e, principalmente, elevar o grau de consciência das pessoas envolvidas nos processos de produção,distribuição e consumo dentro e fora das UANs.
REFERÊNCIAS
BRASIL. IBAM - Instituto Brasileiro de Administração Municipal. Compostagem.
Boletins sobre Resíduos Sólidos, n. 5. Disponível em: <http://www.ibam.
org.br/publique/media/Boletim5rs.pdf>. Acesso em: 28 jun. 2010.
BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia d Estatística – IBGE. Pesquisa Nacional de Saneamento Básico – PNSB;1991 Disponível em:
www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/notasindicadores.shtm. Acesso em: 28 Jun. 2010
BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia d Estatística – IBGE. Pesquisa Nacional de Saneamento Básico de 2000. São Paulo. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatística/populacao/condicaodevida/pnsb/lixocoletado/defaultlixo/shtm>.Acesso em: 28 jun. 2010.
COELHO, H. Manual de gerenciamento de resíduos de serviços de saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2000. 85p.
FELIZARDO, P. M. G. Produção de Biodiesel a Partir de Óleos Usados de Fritura. 2003. Relatório de estágio (Licenciatura em Engenharia Química) - QUERCUS, Lisboa.
BILCK, A.P.; SILVA, D.L.D.S.; COSTA, G.A.N.; BENASSI, V.T.; GARCIA, S. Aproveitamento de Subprodutos: restaurantes de Londrina. Revista em Agronegócios e Meio Ambiente: Maringuá, v.2, n.1, p. 87-104, 2009.
LUSTOSA, M.M.A.; BARREIROS, D.F.; N.; BELO, N.M.C. Ficha Técnica de Preparo: tecnologia mais limpa no controle do desperdício em unidades alimentação coletiva. In: XXI CONGRESSO BRASILEIRO DE NUTRIÇÃO, 2010, Rio de Janeiro. Anais. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Nutrição, 2010. p. 293.
REUSO DO ÓLEO DE FRITURA. Cidades & Soluções, Rio de Janeiro, Globo News, 31 Dezembro 2006. Programa de TV. Disponível em: <http://video.google.com/videoplay?docid=-1686953612957839688 >. Acesso em: 28 Jun. 2010.
REZENDE, A.C.S. Gestão ambiental uma visão presente na UAN com ênfase no controle de resíduos sólidos produzidos. Disponível em: http://www.nutricaoemfoco.com.br/pt-br/site.php?secao=auan-nefdebate&pub=1435. Acesso em: 28 jun. 2010
SÃO PAULO (Estado). Lei nº 12.047, de 21 de setembro de 2005. Institui Programa Estadual de Tratamento e Reciclagem de Óleos e Gorduras de Origem Vegetal ou Animal e Uso Culinário. Comitê de Qualidade da Gestão Pública - CQGP. Publicada na Assessoria Técnico-Legislativa, 21 set. 2005. Disponível em:<http://www.cqgp.sp.gov.br/grupos_tecnicos/gt_licitacoes/legislacao/lei_12047_05.html02>. Acesso em: 28 jun. 2010.
SPINELLI, M.G.N.; CALE, L.R. Avaliação de Resíduos Sólidos em uma Unidade de Alimentação e Nutrição. Revista Simbio-Logias: São Paulo, V.2, n.1, 2009.